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Caminhante, atreve-te a olhar o caminho!

Existe uma canção de um grupo espanhol, chamado Hakuna, que diz:

“Para quem sou eu? O que estou fazendo aqui?

Se soubesse os desejos que tens para mim.

Para quem sou eu? Me chamaste pelo nome.

Diga-me, Deus, qual é o teu caminho sonhado?”

Estas palavras ressoam profundo em um coração jovem que anda a procura de respostas para a sua vida e ao mesmo tempo pode ajudá-lo a  silenciar em uma oração que busca escutar uma resposta por parte do Senhor, como o jovem Samuel: “fala, Senhor, que o teu servo escuta.” (1 Sm 3,10) o que queres? Qual o teu sonho para mim? Qual o caminho que devo seguir?

Diante de tantos caminhos, tantas veredas e atalhos, pode ser difícil identificar qual o caminho que o Senhor nos preparou com amor.  O processo de discernimento pode ser comparado a este caminho que se revela à frente, convidativo e ao mesmo tempo desafiador. Para os jovens de antes e de hoje o caminho de discernimento é sempre uma provocação que exige desinstalar-se e dar passos confiantes de que o Senhor, Ele que é o Caminho, nos acompanha passo a passo neste percurso.

Este é o convite primeiro: Escutar a voz de Deus que chama a desbravar um novo caminho. Ele continua chamando, como um som que é levado pelo vento, pois “O Espírito sopra onde quer" (João 3,8), é livre e gosta de desafiar. Como dizia a Bem-aventurada Madre Mastena: “A jesus lhe agrada os corações audaciosos” e são estes corações que ao escutarem a voz do Senhor se sentem interpelados a responder. Escutar a voz de Deus é uma experiência instigadora, é uma paz inquieta que enche a vida de alegria e um desejo pulsante de se lançar mais, descobrir o que está depois da próxima curva, e da próxima, e da próxima... esta experiência não se pode explicar, somente viver e se deixar encantar. Devemos recordar, no entanto,  que existem outras vozes que falam, sussurram e algumas até gritam... vozes e ruídos que se misturam e confundem; neste momento, onde todas as vozes se confundem, somente no silencio podemos distinguir aquela voz que tem o poder de inquietar e acalmar. No silencio, todos os ruídos  se calam e podemos distinguir aquela voz que sobra respeitosamente ao vento.  

Há um momento entre o chamado e o que irá acontecer em seguida, no qual os dias seguem, com as suas ocupações, encontros e desencontros, mas no íntimo a vida é sentida de uma maneira diferente, é certo que algumas coisas ganham novo sentido e outras já não parecem tão importantes. Acontece uma tomada de consciência da efemeridade, pode até mesmo doer o entendimento de que tudo nesta vida é passageiro, inclusive nós mesmos e esta  consciência conduz a um questionamento constante e profundo: “Para quem sou eu? O que estou fazendo aqui?” O sentir se amplia em direção ao que não passa, com um desejo sincero de encontrar sentido para esta vida. Ao mesmo tempo, os olhos se voltam para o entorno concreto, para a realidade que grita por dignidade, justiça e paz. Este olhar convida a um compromisso concreto, a construir irmandade, a fazer com que esta vida que é passageira seja também sinal de esperança e amor generoso.    

Depois que ouvimos a voz e ela impregna o nosso ser, chegou a hora de desinstalar-se. Já não podemos continuar como estamos, sentimos o vazio que clama para ser preenchido, queremos dar uma resposta e esse querer se faz urgente. Somos capazes de deixar tudo, preparar a mochila e empreender o caminho. Aonde este caminho nos levará? Não sabemos ao certo, como não sabia Abrão quando o Senhor lhe disse: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar”,  esta incerteza pode nos fazer duvidar porque exige confiança em quem chama, uma confiança que dá um passo de cada vez e se deixa guiar; não é fácil deixar o conhecido, porque o desconhecido causa desconforto e medo, porém  "no amor não há medo; pelo contrário, o perfeito amor lança fora o medo" (IJo 4,18) e é justamente por amor que aceitamos o desafio de desinstalar-se e empreender a caminhada, porque Ele nos acompanha e sabe por onde ir. E este é um momento decisivo, no qual perguntamos:Diga-me, Deus, qual é o teu caminho sonhado?”. Para saber a resposta é necessário caminhar, do contrário, permaneceremos olhando o caminho que continuará convidando.

Caminhar exige coragem, determinação e confiança. Confiança não em nossas forças e capacidades, e sim na graça de Deus porque “fiel é aquele que chama, e há de realizar aquilo que prometeu".” (1Tes 5, 24). Devemos caminhar e deixar-nos encantar pelo caminho, pelos encontros, descobertas, experiências, partilha de saberes... o caminho também comporta cansaço, as vezes é preciso diminuir a marcha e fazer pausas antes de retomar. No caminho conhecemos companheiros  que partilham dos mesmos objetivos, que nos acompanham, até certo ponto, e alguns deles tomam outros destinos. E assim, desta forma, o “caminho se faz ao caminhar”, como nos recorda o poeta espanhol Antonio Machado.

Sente que este chamado é para ti? Então escuta a voz que diz: “Vem e segue-me”, este convite que foi feito a muitos homens e mulheres que um dia se atreveram a olhar o Caminho.

Você já se sentiu "desinstalado" da sua zona de conforto? Conta-nos: o que te ajudou a continuar caminhando ou o que te impediu?

 

Auteur
Religiosa da Sagrada Face (RSF)

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