
O eco de uma vocação
Ainda na aurora da minha infância, muito antes que a razão moldasse os meus pensamentos, minha mãe já traçava em minha testa o sinal da cruz. Antes do sono chegar, sua voz entoava hinos religiosos que me embalavam, e suas preces silenciosas guardavam a minha rede, especialmente quando a febre ou a doença tentavam me visitar.
Quando minha boca aprendeu o mistério das primeiras palavras, ela me guiou pelos caminhos das preces fundamentais do cristão. E quando meus pés arriscaram os primeiros passos, o destino foi a Igreja, onde fui apresentada ao culto divino. Desde que vi a luz deste mundo, todas as noites ganhavam o mesmo compasso: o terço rezado em família. Minha mãe, com seu coração fervoroso, transformava sua rotina em círculos bíblicos, novenas, reuniões, estudos e catequeses, pois, era animadora de comunidades.
Assim que minhas frases deixaram de ser débeis balbucios e ganharam contornos, ela depositou em minhas mãos a sua única Bíblia. Era o nosso único livro, mas continha em si uma biblioteca inteira. Foi nessa coleção sagrada de páginas que compreendi, desde cedo, que a fé e a ciência sempre dançaram a mesma música. Aprendi que, no princípio, o Universo não passava de um rascunho caótico, até que o Criador decidiu pintar a existência com as tintas do saber.
Antes de adquirir noção sobre a grade curricular vigente, compreendi que tudo começa no Fiat divino: o "Haja luz" inaugura o tempo e o espaço através da Física, enquanto a Geografia molda os contornos do cenário terrestre, erguendo vales e montanhas. Do pó e dos elementos do solo, a Química molda o ser humano, e a Biologia desperta o metabolismo no sopro que nos divide e nos une em homens e mulheres. A Matemática divina ensina a geometria da generosidade e a exatidão de contar os dias, cujo ritmo flui de forma cíclica pela História, onde a humanidade caminha sob o mesmo sol.
A verdadeira Sociologia dissolve barreiras na busca pela igualdade, traduzindo-se em uma Religião viva que abandona altares frios para acolher a dor do próximo. No princípio era o Verbo, a Literatura que dá sentido ao caos, curvando-se diante das Artes, que enxergam na nossa existência o design perfeito do Artista Supremo. Por fim, a mente humana se eleva através da Filosofia, na busca pela verdade que liberta, e mergulha na profundidade dos mistérios divinos com a Teologia.
Cresci cercada pela riqueza dessa biblioteca, consciente que o meu legado foi moldado aos pés de uma mestra singular. Durante dezenove anos, minha mãe foi o meu Gamaliel particular. Naquela escola da vida austera, onde a pobreza tocava o cotidiano e até um único ovo precisava ser partido para se multiplicar, a escassez nunca foi desculpa para o egoísmo. Das mãos dela, ciganos, mudos e passantes sempre recebiam o pão da partilha. "A vasilha de farinha não esvaziará e a jarra de azeite não se esgotará", ela repetia, como quem guarda uma promessa eterna no coração. Com ela, aprendi a erguer os olhos para o alto, a esperar contra toda a esperança e, no entretempo, semear a justiça e o bem.
Aos nove anos, conduzida por essa mãe-catequista, fiz minha Primeira Eucaristia. Foi nesse mesmo solo sagrado da infância que o mistério da vocação começou a soprar, personificado na visita missionária das Irmãs da Sagrada Face. Paralelamente, pelo rádio, eu e minha mãe sintonizávamos as frequências das Irmãs Doroteias de Santa Paula Frassinetti, santa que, por providência, me emprestou o nome. O desejo de servir já ardia em mim; tornei-me colaboradora ativa das celebrações e círculos da comunidade, um título carinhoso que o Padre Walter me deu, pois, a meninice ainda não me permitia ser Animadora.
Guiada por ele, escrevi uma carta às Irmãs Doroteias que residiam em Cajazeiras, na Paraíba. Abri meu coração de menina e pedi para ingressar na congregação. A resposta, contudo, veio em tom de despedida: a casa estava fechando, as irmãs partiam para outras missões. Compreendi que o tempo ainda não era o meu. Guardei a semente da vocação "quarando" sob o sol dos dias, enquanto mergulhava nos estudos. A rotina tornou-se uma longa jornada: caminhadas de quilômetros na beira da estrada, noites escuras no retorno para casa. Foi nesse período que a morte de minha avó paterna me tocou a alma, sendo o meu primeiro grande luto, uma ferida que me fez tatear a fragilidade da existência.
Mas os ventos que sopram desde a Criação sabem o momento exato de retornar. Um dia, as cortinas da escola onde eu estudava se abriram para um tríduo vocacional, celebrando a profissão religiosa de três noviças da Sagrada Face. Ao participar daquele evento, o sopro divino me atingiu de um modo inteiramente novo. Era um chamado irrecusável para dedicar minha vida ao Reino. Dessa vez, os caminhos se alinharam com suavidade. Com o apoio terno de meus pais, transferi meus estudos para Martins/RN, iniciei os acompanhamentos e a convivência com as Irmãs da Sagrada Face. Em julho de 1998, atravessei o limiar e entrei definitivamente para a congregação. A alegria de minha família foi o selo de Deus sobre a minha escolha; o sorriso de minha mãe era o reflexo mais puro dessa confirmação.
Minha vocação, percebo hoje, é o eco da vida dela. Em sua simplicidade, ela me ensinou a profunda teologia do fogão a lenha: a matéria precisa se consumir para que o fogo permaneça vivo. Minha mãe consumiu-se no serviço, na doação e na prece constante para que a nossa fé nunca esfriasse e a nossa família se mantivesse de pé, mesmo nas maiores tempestades da escassez. Foi esse testemunho que me inspirou a ofertar minha vida na castidade, na pobreza e na obediência evangélica, pelo resgate de uma humanidade que sofre e pelo florescer de uma vida santa.
Sei que nem todos os que abraçam a vida religiosa encontram um solo familiar fértil ou um círculo de testemunhos cristãos. Por isso, atesto por experiência: em um lar onde habitam mães como Mônica, tecem-se filhos como Agostinho. Que saibamos olhar com infinito carinho para as famílias, rezando por essas pequenas e primeiras escolas de amor. Que as incentivemos a nutrir a fé de seus filhos, oferecendo-os, com generosidade, como um dom perfeito ao Criador.
“Trazendo à memória a fé não fingida que há em ti, a qual habitou primeiro em tua avó Loide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que habita também em ti.” (2 Timóteo 1, 5)
Perguntas para reflexão
- Quem foi, na sua vida, o "Gamaliel" que te ensinou a fé com gestos mais do que com palavras?
- Que sementes de vocação você guardou "quarando" ao sol, esperando o tempo certo?
- E você, que eco da fé da sua família ainda ressoa nas suas escolhas hoje?




